Tarde difícil
Estou precisando aprender a respeitar o espaço de tempo que há entre o processo de um trabalho e de outro. O que fazer nesse intervalo? É sofrido chegar num resultado de qualidade, e quando isso acontece surgem muitas indagações em meio a muitos sentimentos de transformação e aprovação.
Recentemente fiz um retrato que ficou muito bom. Ficou um bom quadro embora a fidelidade com a realidade não tenha sido grande. Eu passei do ponto nesse quesito. Em dado momento da obra estava super semelhante, mas não considerei que a obra estava acabada e segui em frente.
Estou com um sentimento de vazio interior muito grande. Eu preciso me comunicar com os outros, mas não sei como. Eu sei me comunicar com as pessoas, mas desde que houve essa subida nas mortes da pandemia, eu meio que perdi o fio da meada.
Minha mãe está mal também, e organizou uma viagem a Campos do Jordão comigo e meu irmão, além da nossa amiga Aninha. Vou ter de parar as feiras do MASP, o Pilates, mas tudo bem. Estou mesmo precisando de uma pausa. Uma pausa de São Paulo, de meu apartamento ateliê.
Mil contas para se pagar e as vendas sumiram. Meu psicanalista diz: continue produzindo independente disso. Ele está certo, é preciso ter resiliência diante das adversidades. Mas continuo com a questão do hiato entre um trabalho e outro. O processo artístico exige um respiro e não sei descansar. Não sei voltar a atenção para um livro. E por quê um livro? Pois sua leitura leva dias. E acredito que essa seja a medida de tempo entre um trabalho e outro. Estou em dia com as tarefas da faculdade. Estou meio deprimido, não lavo louça, não varro a casa, nem passo pano no chão, estou regando pouco as plantas, o mínimo para elas viverem. O ateliê está uma quase bagunça por eu estar produzindo muito.
Pela pandemia, não dá para visitar um amigo. Não consigo ter longas conversas pelo telefone. Está todo mundo mal. Eu acho até que vão haver guerras depois dessa pandemia, dada a constatação de que a morte de gente em massa não é a pior coisa do mundo. Ruim é ter a ameaça de uma bomba atômica na sua cabeça... vinda de coreanos, iranianos e quem mais quiser entrar nessa "turma". As guerras são necessárias nessa perspectiva do tempo atual. Vivemos um mundo que tem que se desdobrar para proibir a degustação de morcegos na China. Como estimular um País daquele tamanho, com uma população daquele tamanho, a ter práticas sanitárias mais seguras? Aqui, temos o caso do assassinato do menino Henry. A política se desenhando como extremista pelos próximos 12 anos. Lula vai ser eleito, depois Bolsonaro volta ao poder e fica 8 anos. Período de merda. Não aguento ver a figura dos dois na televisão. E um governo do estado totalmente pasteurizado faz anos. Fazem obras, por isso se perpetuam no poder. Como se o desenvolvimento fosse uma prerrogativa de apenas um partido.
Graças a Deus meu movimento para dentro está dando frutos. Fiz vendas impressionantes, para meus padrões, em dezembro, janeiro e março. O dinheiro dá para quase nada, por maior que seja. As artes se apresentam para mim como uma tábua de salvação. Preciso recuperar meu senso religioso. Estou em transformação profunda e não vejo aonde isso vai me levar. Não entendo 40% das atitudes dos católicos. O modo econômico de ler os evangelhos, as muitas orações, as consagrações, a ausência de uma explicitação de discernimento em torno da busca de uma vocação. A interrupção da linha genética para a frutificação estéril da vida procriativa, mas rica em palavras de edificação e de levar as pessoas ao caminho dos céus.
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