Sobre os efeitos da fase vermelha da pandemia em mim
Me surgiu uma ideia nova. Pintar nas calçadas de São Paulo.
A fase vermelha de duas semanas me jogou para casa novamente. E sinto um impulso de sair.
Estou com muitas tarefinhas atrasadas da faculdade. E uma obra nova, luminosa, nos trabalhos abstratos está em andamento. Luminosa mesmo, iluminada por baixo.
Contudo tem sido difícil ficar em casa. Ao mesmo tempo que dá medo sair na rua. É um sentimento ambíguo que vai tornando vazio meu campo de intenções. Até surgir uma intenção nova.
Tenho medo dos riscos de estar nas calçadas. Das importunações. Mas ao mesmo tempo o desejo de realizar um sonho, de ver uma imagem surgindo de situações tão familiares que são as paisagens das ruas da cidade... é fascinante.
De repente, tudo é tema. Hoje a tarde rodei de carro pelas ruas de um bairro calmo. Vi muitas paisagens bonitas.
Eu divido tudo com a família. Essa intenção, não. Pois provavelmente me dirão: não faça isso.
Mas quando verem os primeiros resultados, vão ficar empolgados.
Estou precisando de feitos surpreendentes. Vitaminar minha visão sobre a vida. Sobre aquilo que sou capaz de fazer em arte.
As pessoas estão cada vez mais impressionadas comigo. E voltar a fazer paisagens é algo que pode me conectar com uma linearidade de percurso.
É difícil ter um discurso. É difícil se olhar de fora. Talvez esteja claro para alguma pessoa a conexão que há entre meus trabalhos de propostas distintas. Mas não sei, sinto que não devo me preocupar com isso apesar de saber que é importante ter uma coesão de raciocínio. Importante para quem? Para o meio artístico? Que prestígio me deram até agora? Apenas um curador veio em casa até agora, o que redundou em nada até agora.
Não bati, ainda, nos núcleos de prosperidade e sinto que isso é uma benção pois, se os recursos são poucos, a liberdade é muita.
Como a pobreza é rica de soluções. Eu dormindo no mesmo cômodo que a Cida de Ilhabela e sua família. O que senti em meu espírito aquela noite é indescritível. Já tive tantas experiências na vida com que não pude compartilhar com ninguém.
O projeto de ser um provedor familiar, para minha família vindoura, por meio das artes é algo que me enche de incertezas, garra, esperança. Mas ver que os pobres talvez se aceitem assim pela liberdade de espírito a ela associada me faz até pensar em me atirar mais e melhor na vida.
Perdi o crédito com minha família. Me tornei esquizofrênico. Não sei que medidas de liberdade eu tomaria sem que eles aprovassem ou reprovassem e viessem a me internar novamente. Mas eu estava mal. Apesar disso a partir de certo momento vou precisar ter minha autonomia.
Eu fiquei muito louco. Estou tendo a oportunidade de voltar a centralidade. Mas aprendi tanto, tanto no meio de meu enlouquecimento. Foi duro. Foi uma armadilha. É pelo bem que sofri essa internação.
Recuperei um centro de seriedade que já estava presente. Uma necessidade urgente de seriedade que sempre urgiu em mim. E vi o mundo se despedaçando ao meu redor.
Sinto que até atingi um nível de iluminação. E daí o mundo ruiu sobre mim. E enlouqueci mais ainda. Me vi fisicamente iluminado, com uma aura enorme. E isso atraiu hostilidades diárias. Me fazia brigar com terceiros diariamente. Virei santo. Não deixaram. Muito dependia de mim. Vi as mulheres ficarem mais bonitas dia a dia nas ruas. Me senti em conexão com muitas pessoas desconhecidas. De repente o Reino dos Céus estava um pouco presente para mim, em mim. E o Reino terreno reagindo. E meu lado terreno reativo, também. Cedi.
Espero que eu esteja apto a estar de novo no Reino dos Céus com alguma sabedoria que acredito estar adquirindo nesse período de normalidade. Eu dou muito as caras para o mundo. Não sei como me voltar para mim mesmo, para as coisas práticas do cotidiano. A medicação que estou tomando está me ajudando com isso. Desde criancinha eu era dado, ia abraçar todo mundo. Isso é bom, mas quando cresci, por insegurança, e talvez pelo excesso de bulling, três pesados anos de bullyng, fiquei muito impressionado com a necessidade de compreender a impressão dos outros sobre mim. E passei a dar ouvidos a todos. Para me adequar, me ajustar. E isso, se fosse válido, e talvez seja, tem limites.
Três anos de racismo, desprezo, revolta contra minha pessoa, por nada. Esmagar por esmagar. Gente cruel. E não pedi ajuda para um professor, para um parente. Por quê?
Enfim, a cura é maior do que eu. Acredito que vou voltar a ser o que eu era independente do que eu era. Minha natureza há de ressurgir. Talvez quando eu menos esperar.
Eu sempre fui um azougue em meio a bastante seriedade. Como um humorista que sabe onde está a razão e a justeza das coisas. Eu perdi isso. Não encontrei meu lugar de mundo onde eu brilhava assim quando eu era criança. No mundo não há tantos espaços quanto numa família quando a gente é criança.
Meu pai me falou hoje que quando eu nasci minha família deixou de ser "militar". Que eu trouxe uma flexibilidade à rigidez de comportamento que até então aquela família tinha.
Eu vim para bagunçar. Bagunçar um pouco, muito, mas sempre certo da medida da normalidade. Que se não estava em mim, estava no ambiente que eu orquestrava.
Estou vivendo uma rara oportunidade de escapar de uma grande perseguição. Pois publicamente eu mostrei uma grande inteligência. Porque o tempo pedia isso. Redigi 3 mil comentários a matérias de jornal.
Não sei o que será do futuro. Alguma noção maior de auto-preservação. É tudo muito novo, a internet.
Já sei o que não fazer em termos de redes sociais. Eu acredito no poder das palavras. Como elas vão ao vento e transformam a realidade uma vez expressadas. Quanto mais desimportante a pessoa, mais força tem a palavra. Pois dá liberdade do outro agregar e tomar o seu lugar de discurso. Nada é mais potente que isso.
Eu contribuía como anônimo nos comentários de jornal até que da noite para o dia mudaram as regras e expuseram meu nome. Eu escrevia algo e descia para andar pela rua. E ouvia as pessoas falando de algo que tinha escrito. Pequenos laços de provocações. Isso foi se intensificando, crescendo, até que fui para Ilhabela para dar um espaço de tempo. Isso foi no fim de 2010. Lá, cai em mais perseguições. Me tranquei em casa por 5 meses. Quis sair do mundo. Mas lia jornal, assinava jornal. Eu escrevia algo num caderno e no dia seguinte via expressas aquelas ideias nos jornais. Eu sonhava com as notícias do dia seguinte.
Eu preciso encontrar meu lugar no mundo. Fiquei desesperado quando vi minha família me sustentando sem me prover de uma formação que me fizesse desenvolver minha autonomia profissional. Foi aí que manifestei o desejo de ter uma formação em artes. E fui atendido.
Não sei como manifestar a meu pai que não dá para ele falir. Está a trinta anos sem trabalhar. Sua mãe provedora morreu. Está em depressão profunda. E não se submete a um tratamento psiquiátrico.
Ele não está louco como eu fiquei. Mas talvez precise de um tratamento psiquiátrico também. Ele acredita em fantasmas e talvez ache que eu queira tirar o fantasma de mim e passar para ele. Sei lá o que ele pensa. Ele não tá legal. Está melhorando mas sem neennhhuummaa perspectiva de voltar a trabalhar. E esse é o estágio de normalidade e realidade de minha família. Um talento morto. Um morto-vivo. Fez exames, está com boa saúde, mas derrotado.
As pessoas podem se fazer mal de modo que se torne quase perene. Mas não estamos sozinhos na vida. As portas e janelas da alma dele estão fechadas. Ele não permite que mude o quadro de conflito entre ele e o pai dele. Ele parece que não olha para gente. Apenas para ele em relação a gente. Ele até olha para gente, mas para gente no passado.
Eu passei a vida inteira (de atividade profissional) com um pai pintor que não trabalha. Era para eu aprender um monte com ele.
Temo que ele passe as riquezas dele para namorada dele e eu fique com um pai pobre e incapacitado de alguma atividade.
Eu rezo para que eu tenha um percurso de vida mais linear. Que eu namore, noive, case e depois tenha filhos. Que saiba conversar com a família de minha esposa. Tolerar seus parentes. A formação de minha família foi muito avalanche. De repente minha mãe estava grávida e as coisas foram acontecendo sobre a liderança de meu pai.
Ele está com fraqueza e comendo mortadela com cerveja. Ele, que já foi um xiita da macrobiótica.
E eu solto no mundo procurando meu caminho por meio de Jesus, da pintura e das minhas opiniões.
Eu fiquei esquizofrênico. Eu ouvia vozes. Uma voz me chamando de idiota o tempo todo. Como se fosse a voz de meu primeiro amor me chamando de idiota. Isso em 2011 quando estive em Ilhabela.
As doenças tem razões. Se conheço as razões da minha, isso não quer dizer que tenha ficado menos doente. Não importa a veracidade de minha percepção de mundo, eu rompi a barreira da realidade.
Eu podia falar com a TV e a pessoa do outro lado responder, isso não é normal.
Posso ter visto Kurt Cobain vivo e velho num clip clássico do Nirvana, no You tube, isso não quer dizer que isso seja normal.
Se o mundo se mostra anormal, isso não quer dizer que minha centralidade estivesse a favor de algo são, pelo contrário.
Eu podia conversar com as paredes dentro de casa, e as pessoas me responderem do lado de fora, isso não quer dizer que seja normal.
A verdade a partir de certo ponto está condicionada a um padrão de normalidade que é conhecido por todos. Por mais verdadeira que fossem minhas impressões, aquilo estava me tirando do mundo. E eu desesperado com aquilo.
O tratamento psiquiátrico me tirou dessa realidade nefasta.
Porque eu estava descontrolado. Se os moinhos rugem, eu que dava o primeiro passo. O tratamento psiquiátrico me tirou do lugar de dar o primeiro passo. Eu estava caindo muito em tentação.
Me tornei um desgraçado. E o tratamento me tirou dessa condição de vida, desse espaço de mundo.
Eu abria livros em lugares públicos e sentia que o mundo a minha volta conversava com as palavras dos livros. Ainda que fosse verdadeiro, aquilo não era normal. Eu estava afundando, afundando, afundando.
Jesus fala: coragem nas perseguições. A única coisa que me sustenta, as vezes, é a fala de Jesus que diz que quem o negar será perdoado, mas quem negar o Espírito Santo não será perdoado.
A internação psiquiátrica me colocou sobre uma nova incidência do Espírito Santo. Me vejo menor diante dele mas ainda vinculado a ele. E nego Jesus, todos os dias ou quase todos os dias um pouco. Não por prazer, mas por necessidade de voltar a centralidade.
Foi injusta minha internação. Mas necessária. É difícil se ver menor. Mas foi necessário. Acredito que vou voltar a crescer mas com mais responsabilidade.
Me apego ao trabalho pois é a única coisa que me mantém conectado a uma realidade desvinculada da avalanche de perseguições que eu vinha sofrendo. Mas tudo é orquestrado por Deus. Se a internação foi uma perseguição, foi uma perseguição que me colocou com os pés no chão para ser dono de um silêncio interior que interrompesse o assédio excessivo do "mundo".
Não sei aonde está a verdade de tudo que percebi. Se eu enlouqueci muuuito realmente ou se o que vi e ouvi foram expressões verdadeiras... como ouvir um CD diversas vezes e a cada vez ouvir uma versão diferente. O que explica isso, minha loucura extrema ou alguma tecnologia (das pessoas do alto ou de baixo) que me escolheu para teste?
Tudo mudou e sinto falta de minha conexão Celeste. Talvez eu deva me ligar mais a uma ideia de Deus, fortalecer isso, do que ir a campo expressar minha convicção nas palavras de Jesus. Pois entre o céu e a Terra há o Reino dos Céus com seus anjos mas também demônios, dragões, fantasmas. Praticar o cristianismo sem uma ideia forte de Deus faz com que se confundam as forças do bem com as forças do mal. Mas o fato é que acredito pouco em Deus. Me agarrei a Jesus como iniciação a aproximação com Deus. Mas também para ter um sentido de comunidade mais forte dentro de mim.Deus, Deus mesmo, eu percebo agora que me agarrei pouco a desenvolver a noção de quem é Ele. Para identificá-lo e, além de amá-lo, ir em direção apenas a Ele nos céus. A prática do cristianismo muitas vezes te coloca em contato com o céu sem que se distingua o que há de bom e ruim nele. Pois é dito que até Deus precisa de nossa ajuda para melhorar o céu e, lógico, a Terra.
Não me vejo com forças de evoluir no caminho da fé. Não me vejo com forças para renunciar ao desejo de ter uma mulher e uma família, para seguir a Jesus. Eu não conheço o significado disso. Por ser verdadeiro não quer dizer que eu compreenda. Eu compreendo que seja verdadeiro. Mas não compreendo o que significa.
Será que Jesus me chamou para segui-lo? Esse chamado se dá por uma palavra dentro de uma igreja, ou é algo maior? Uma palavra numa igreja não é pouco.
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