Reflexões sobre um desenho antigo
Boa noite, dr André, estive agora observando um desenho de 2009 e me transportei para aquela época.
Veja:
Fico pensando no que me tirou dessa rota, desse caminho. Agora aos poucos o estou retomando.
Eu havia concluído uma formação universitária fazia um ano e meio. Estava com um amigo alemão em São Paulo, apaixonado por São Paulo. Fizemos uma exposição juntos num lugar que ficava em frente em frente a um ponto de travestis. Era o ateliê da Vila Buarque. Naquela época eu podia escolher entre o ateliê da Vila Buarque, o apartamento no Itaim e a casa em Ilhabela. Um reizinho endividado no cheque especial do banco.
Meu pai me criticava tanto que meu desenho precisava melhorar que comecei a desenhar sobre o tecido. Sobre o gesso branco do tecido.
Sem namorada, sem emprego, com dinheiro vindo não sei da onde para comprar materiais, minha mãe ajudando sempre e mais uma vez as artes no centro de minha existência. Essa cena registra a paisagem da casa de meu pai, onde morava.
Estou me esforçando para fazer as vendas e estou conseguindo. Mas vejo esse artista que eu era em 2009 e penso, porque o abandonei? Cadê minha juventude? Eu tinha 27 anos. As coisas só foram piorando, piorando, piorando. Até que agora estão melhorando, melhorando.
Há tantas dúvidas que rondam os artistas. Tantos questionamentos que rondam suas obras. Nessa época eu tinha questionamento nenhum. Apenas alguma preocupação em melhorar. Mas satisfeito com meus recursos.
Nessa época eu já estava escrevendo para o jornal, o espaço de comentários dos internautas. E foi aí que eu me afundei. Escrevi mais de 3 mil comentários. Num dia a dia que foi ocupando meu lugar de existir.
Eu era super inteligente e estava contribuindo com assuntos de economia, política, sociedade. E dando espaço de minha profissão a uma atividade totalmente não remunerada mas, para mim, de evidentes transformações sociais por meio de minha palavra.
Aonde eu estaria hoje se não tivesse feito os abstratos? Eu avancei, estou fazendo retratos, mas preciso avançar mais. Preciso daquela seriedade e concisão de volta.
De certo modo hoje faço muitas concessões, vou aonde a vaca vai, me deixo levar pelas multidões. Antes eu era mais coeso, centrado. Foram surgindo tantas dúvidas, as vezes até para que lado da rua ir, que fui, sei lá, desvanecendo de minhas certezas e retidão. Não que fosse algo extraordinário, pois era algo simples. Mas era assim.
Nessa imagem aparecem parte de meus pertences da época. Um spot de iluminação, uma maleta de madeira, alguns cadernos no andar de cima da instante.
E tanta coisa foi sendo destruída. Hoje essa cena não existe mais. A mesa foi embora, as estantes foram desmontadas. A mapoteca em baixo das estantes, doada. A capacidade de se desfazer das riquezas materiais: livros, pertences, materiais artísticos foi tão grande que só recentemente me cobrei de voltar a acumular recursos materiais de produção. Eu tinha muitos livros, não sei aonde foram parar. Estavam na casa da ilha, que foi alugada. Não sei aonde estão. De repente eu estava apartado da ilha, minha prima e meu tio tomaram o atelie da Vila Buarque, meu irmão foi morar no apartamento do Itaim e alugaram para mim um apartamento no Bom Retiro.
Meu vai e vem na cidade se tornou incomodo e exaustivo. Ir para o inglês, para o Aikido, para duas terapias ou três, e vai de ônibus para cá e para lá. De repente deixou de ser tudo perto.
E minha mente se distraindo. Com mais e mais coisas. Eu escrevendo cartas para Deus e o mundo. Telefonando para um monte de gente. A parceria com a Cristina, do MASP, me colocou os pés no chão, Isso foi 2017. 2019 ela arrumou um novo parceiro para mim, o José Luis, que só me enrolou para fazer uma exposição em seu show room. No final, ele queria as obras emolduradas em caixas de acrílico. Eu fui embora. Era uma despesa de 18 mil reais!
Foi nessa época que fui internado. Se a exposição saísse teria me rendido louros e mais algumas coisas. A ideia era até fazer um livro com minha obra. Mas nada disso aconteceu. Eu me perdi mais em mais em minha busca até me encontrar com esse medicamento novo que me devolveu a minha centralidade.
Tem algo solto, dentro de mim, artisticamente, que eu preciso recuperar. Talvez seja bom que tenha soltado. Mas talvez seja voltar a valorizar o desenho. Nunca ninguém deu bola para meus desenhos, além do Jairo. Talvez eu precise conversar com ele, e com a Cristina, sobre a colocação de mercado desses desenhos.
Mas agir com excelência sem preocupação de mercado. O desenho me devolve a isso. Preciso pensar, também, em como armazená-los.
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